segunda-feira, 6 de agosto de 2018

DEUS É GAY E TEM TPM - Dissertações sobre o caos (3ªparte)


Primeiro veio o frio e a chuva que se prolongaram quase ininterruptamente desde Maio ao início de Agosto. A seguir, como já eram bastantes os ecos de uma turba alvoraçada veio o calor, um calor intenso, quase infernal de mais de 40 graus com as vozes de uns a fazerem-se ouvir enquanto os outros, os Agostinhos, corriam a encher as praias de uma gente na sua maioria desordeira e inconsciente ao descanso e direitos dos demais. Os Deuses devem estar loucos, só podem. A não ser - e aí já se justificava - que Deus fosse uma mulher, a arrumar a casa em mais uma das suas querelas pela revolução sexual contra todas as desigualdades de que foram vítimas ao longo dos anos. Uma espécie de novo jardim de Eden em que Eva surge com cara de Angela Merkl a obrigar Adão a jogos de sadomasoquismo numa espécie de "50 graus à sombra de Grey" das lides domésticas. Explica-se assim um estudo recente em que se conclui que bebemos menos leite. Pudera!, agora que se acabou a mama!
Provas? Atentem: são as campanhas contra a imagem gratuita da mulher enquanto objecto com a polémica das pitt girls a serem substituídas na Fórmula Um por crianças (será mais aceitável do ponto de vista ético?), as recentes recomendações da FIFA para que as televisões evitassem os close-ups de mulheres bonitas nas bancadas, de tal forma que só Pamela Anderson (namorada do francês Rami) e a Presidente da Croácia, na pujança dos seus 50 anos escaparam à censura. A propósito, insistem os croatas em afirmar que a primeira mulher Presidente daquele país é uma espécie de Marcelo Rebelo de Sousa, porque para ir ao Mundial tirou dias de folga descontados do seu salário, viajou em voo comercial e só depois de ter sido identificada nas bancadas foi convidada para a tribuna de honra da FIFA onde se destacou pela sua naturalidade e exuberância. Continuo sem ver onde estão as semelhanças, mas... Deus só podia definitivamente ser uma mulher bramindo a sua vassoura de Harry Potter contra as desigualdades, contra o assédio, contra uma imagem em que a inteligência e a personalidade são sempre menosprezadas em relação ao corpo. Mas quando eu julgava que a próxima demonstração da sua ira seria submeter-nos - Homens - a um longo e forçado período de castidade - e o que é a enxaqueca senão isso? -, veio de Paris uma notícia que me fez mudar de opinião. Afinal Deus é gay e tem TPM.  Portugal - sim, Portugal, este país Campeão Europeu de Futebol

, este país de homens másculos e de pelo na venta, descendentes de Dom Afonso Henriques e conterrâneos de Zezé Camarinha vai estar pela primeira vez representado nos Gay Games, uma espécie de Jogos Olímpicos LGBT. Uau!!! Preparem o espaço na vitrina das medalhas porque ou muito me engano ou vamos encher a barriga... e não só. Jogos Olímpicos para larilas a acrescentar às marchas de orgulho gays. Nunca fez tanto sentido falar de provas decididas ao centímetro. Ou muito me engano ou os africanos vão partir novamente com ligeira... ou acentuada vantagem em relação aos europeus. Mas a verdade é que falar de Jogos Olímpicos para gays faz-me confusão, quase tanta como as caixas de supermercado e os lugares de autocarro específicos para pessoas idosas, grávidas ou de crianças ao colo. Que espécie de prova têm de fazer os participantes para atestarem das suas habilitações ou preferências sexuais? Um beijo explicito? Trautear uma música do Tony Carreira? Pimba, estás convocado! Será que as medalhas obedecem ao formato original ou terão um formato inovador? E qual será o hino da competição? I Will Survive, YMCA? A comunidade gay, pela qual nutro bastante respeito e até admiração pela força com que enfrentam as adversidades de uma sociedade raramente justa e comprovadamente antiquada nestes assuntos é composta por homens e mulheres maioritariamente sérios e dignos que não precisam de montar um show burlesco para mostrar as suas opções. Demarcarem-se de actividades onde podem participar de pleno direito é o mesmo que defender a integração da comunidade cigana na nossa quando são eles que se isolam e criam muros de Berlim entre a sua cultura e as demais. O que virá a seguir? Uma marcha pelos direitos dos pedófilos? Assim vai um mundo virado do avesso, um mundo em que ficámos a saber na semana passada que o estratega do ataque às Torres Gémeas  afinal até era bom rapaz, tímido e bondoso e que foram os colegas da universidade que lhe fizeram uma lavagem ao cérebro. Esta ideia das mães atirarem a culpa de todas as asneiras dos filhos às más companhias soa-me no mínimo pouco original. Tivesse tido a oportunidade de falar com o Presidente da Venezuela e já a progenitora de Bin Laden acrescentaria que os coleguinhas de escola eram americanos e provavelmente... gays.

domingo, 5 de agosto de 2018

COMO UM JARDIM SEM FLORES - Dissertações sobre o caos (parte 2)

João tem seis anos, quase sete, é daqueles alunos que nem precisava de estudar para passar de ano de tão inteligente. Os olhos de um azul profundo em contraste com o cabelo louro num penteado a imitar o Ronaldo formam uma combinação que junto com o jeito para o futebol e a facilidade de comunicação fazem dele um daqueles casos de rara popularidade entre os que o rodeiam. Maria tem oito anos e a sua capacidade tanto para as letras como para os números deixam muito a desejar. Se der para passar não se vai esforçar para não desgastar a beleza, das horas de sono perdidas. Ao contrário do João passa despercebida quando confinada entre as quatro paredes da sala de aula, mas todo o seu magnetismo liberta-se fora dela. Gosta de ser livre, sem rédeas, sem regras nem compromissos. Por isso o João, a quem todos seguem e idolatram, o Zé, o Manel e o António deixam de raciocinar quando a Maria passa, porque a Maria tem qualquer coisa que nem Freud explica, mas que o João sem conhecimento de causa e levado apenas por um instinto hormonal adivinha.
 Milhares de anos após termos inventado o fogo para impressionar as nossas mulheres, o Homem saiu da caverna, adaptou o meio em função das suas necessidades, transformou-o - por vezes sem pensar nas consequências - mas tornou-o num lugar comodamente mais aprazível para se viver. Evoluímos, arranjámos trabalho, inventámos as classes sociais, acabámos com a escravatura, abolimos em muitos lugares a pena de morte e até deixámos que as mulheres votassem e pudessem conduzir. Aumentámos a taxa de acidentes rodoviários, as mortes na estrada, ganhámos a simpatia das seguradoras e dos agentes funerários. O pai do João tem 33 anos. Aos seus olhos, o mundo é um lugar complexo mas mais perfeito do que no tempo dos seus pais ou avós, uma máquina bem oleada onde cada parafuso é de vital importância para o bom funcionamento da sociedade. O culto da beleza que vigorava na Antiga Grécia está hoje obsoleto. Já não basta nem importa ser estético como o provaram Dali e Picasso. Já não basta ser - como à mulher de César -, importa parecer. O cavalheirismo de outrora feito de flores e poesias são agora tidos como assédio, criminosos piropos mais ou menos engraçados mas caídos em desgraça à luz duma moralidade feita de aparências. Automatizados somos cada vez mais futebol sem golos, circo sem palhaços, bolo sem açúcar, sexo sem imaginação. A emoção deu lugar à lógica e à razão, proliferam as causas humanitárias, sociais e raciais, urge sensibilizar os políticos e salvar o planeta. O pensamento, os estudos, as prioridades levaram-nos a um ponto sem retorno cada vez mais distantes da idade da inocência. Puseram uma burka na Mona Lisa. O Homem do Futuro é um Homem despido de falsas fés, um santo de pés de barro, castrado na sua virilidade e na dignidade em prole da globalização e da singularidade de género. O Homem de Amanhã é um homem despido de emoções e de malícia, Adão e Eva em quartos separados num condomínio de pedra cinzento e frio. 
Mas isso é amanhã. Hoje, por mais que digam ao pai do João que a Lua é o único satélite natural da Terra, que a poesia está fora de moda e que todas as cartas de amor são ridículas, como diria Fernando Pessoa, por mais que lá na América se acabe com os desfiles em fato de banho e a próxima Miss América possa ser  sósia da Susan Boyle, por mais que em África um Presidente diga que a boca é para comer e não para fazer sexo... peanuts, como diria o outro! O pai do João ainda continua apaixonado pela esposa ao fim de quase sete anos, fugindo da rotina em sonhos por vezes impossíveis de concretizar mas nos quais não deixa de acreditar, saboreando cada pedaço de vida sentida em prazeres lúdicos nem sempre compreendidos ou aceites pelas maiorias. Não lhe interessa a opinião dos outros, amante que é das diferenças. É feliz e isso basta-lhe, e ele sabe que por mais anos que passem, das cavernas aos arranha-céus de hoje, aos seis ou aos sessenta, continuamos a ser ainda Joões a fazer coisas sem nexo pelas Marias da vida. Porque o mundo pode ser um lugar complexo, por vezes cinzento, por vezes azul como um dia de Verão, mas sem amor, sem beleza, sem mulheres será sempre tão bonito como um jardim sem flores.

ERA UMA VEZ O HOMEM!... - dissertações sobre o caos

No princípio era tudo mais fácil,- embora Ezequiel não o soubesse - a caverna onde morava não tinha luz mas também não havia EDP, Mexia nem chineses. Naquele dia quando saiu cá para fora para ver o tempo - atitude crucial para saber se levaria a tanga de Verão ou aquela de mangas compridas para o frio, estava longe de imaginar as consequências que um acto irreflectido pode causar na vida das pessoas e na História da Humanidade. Estava de chuva, como em toda a semana e na semana anterior, como se cada nascer do dia fosse uma repetição exacta do dia que havia passado. O mesmo grupo de amigos, as mesmas anedotas porcas sobre caça e pesca e mais um torneio para ver quem urinava mais longe. Um dia, esperava Ezequiel, haveriam de inventar concursos mais interessantes. Foi no meio deste solilóquio que a viu, estranha e bizarra criatura de crina longa e com protuberâncias mais salientes que o calo que tinha no pé esquerdo, fruto de uma quezília com um t-rex anão, que lhe valera para lá de quarenta dias de baixa. Foi a primeira vez que viu Maria Jaquina, sobrinha-neta de Eva, primeira fêmea de seu padrinho Adão. No mesmo instante que a viu arrependeu-se de ter inventado a roupa e dois minutos depois de ter decidido virar gay porque lhe tinham dito que ficava bem a quem gostava de arranjar os seus trapinhos de pele de leão - imitação, por razões óbvias - e de veado uma atitude mais arrojada. Não que esse detalhe tivesse muita importância, não fosse o facto de ter arrancado a si mesmo o outro detalhe - pormaior - já que a roupa era ainda apertada, por escassa e estava longe de ser suave ou sedosa, dificultando-lhe as erecções. Nessa época ainda não tinham inventado a braguilha. Nos anos seguintes Ezequiel dedicou a sua vida à confecção de roupa feminina, à tentativa de criação de implantes masculinos, a lutas desiguais contra animais selvagens e todo o tipo de façanhas heróicas, estúpidas e inconsequentes no sentido de chamar para si a atenção daquele estranho animal. Inventou o fogo, queimou-se, tirou o curso de sexo oral e inventou a roda. Morreria atropelado pela sua própria invenção numa tarde chuvosa de Setembro, solteiro e virgem - isto se esquecermos aquela brincadeira com o cão, já numa fase de desespero. 

É uma praia portuguesa concerteza...

Agostinhos: ainda agora chegaram e já estou farto deles.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

UM JOGO DE PAIXÕES

Quando penso em futebol é assim, duas equipas encarando o jogo como uma final, sem medos nem receios tácticos, virados para o golo, exultando os jogadores - quais artistas - a darem azo à sua criatividade individual e colectiva, fugindo a esquemas e subterfúgios mais racionais que visam apenas o resultado mas que se tornam num exercício enfadonho para quem vê e numa má publicidade para a modalidade. Mais do que o título conquistado, parabéns a jogadores e treinadores de duas equipas que devolveram a esperança ao futebol.

JÁ ERA

Invocando razões alegadamente provocadas pela repercussão que o escândalo sobre a venda do seu imóvel está a ter na sua família, o deputado do Bloco de Esquerda Ricardo Robles deu o dito por não dito como qualquer bom político e demitiu-se do cargo de vereador da Câmara de Lisboa, caso para dizer: "Já Era!". É fina e frágil a linha que separa a vida íntima e a profissional de qualquer um de nós, com maior ênfase para quem granjeia de uma maior exposição pública e o poder de uma opinião popular manipulada ou não, nem sempre justa, por mal informada pode levar-nos tão depressa ao topo como às sarjetas do anonimato ou da discriminação. Não sendo conhecedor dos meandros de toda a história parece-me a mim que Robles - cuja carreira ingenuamente terminou quase antes de começar - foi mais um instrumento de uma política sem escrúpulos do que propriamente um vilão desprezível.