
"Jovens
e nus frente ao mar, estão presentes em cada célula do seu corpo. Mas a
vida que têm é demasiado para eles e não sabem que fazer dela. Emergem
da água rutilantes e riem. Depois deitam-se na areia, gastam o dia e a
noite a amar-se, a embebedar-se, a estoirar todo o prazer e forças que
têm. E ficam ainda com vida por gastar. É desses sobejos já com bolor
que terão de viver depois na velhice."
in Escrever, de Virgilio Ferreira
Crítico.
Podem pensar que sou demasiado crítico, porque sou. Ou talvez apenas
céptico. Não que seja perfeito, longe, quão longe me encontro eu desse
patamar. Talvez seja por isso, consciente de cada uma das minhas
imperfeições que reconheça mais facilmente os meus e os erros dos
outros. Porque a vida é demasiado curta, o futuro é algo sério para ser
levianamente encarado e o presente um bem tão precioso e efémero que não
deve nem pode ser adiado ou simplesmente deixado para trás, nas
incúrias de quem não sabe parar para degustar o sabor das cousas. A mais
de meio caminho dessa estrada que separa a infância da velhice,
preocupa-me cada vez mais a maneira como passo os meus dias, reflicto no
que fiz, no que posso ainda fazer, no tempo que tenho. Já não vejo a
vida numa perspectiva de quantidade mas mais de qualidade, por isso não
preciso de correr atrás de um mundo inteiro de coisas por descobrir, de
experiências novas. Pouco pode significar quanto baste, desde que não me
contente com metades e usufrua ao máximo daquilo que as minhas mãos
ainda conseguem alcançar. Correndo, posso perder muito mais do que a
lebre da história da tartaruga, posso perder os pequenos mas
maravilhosos detalhes, pequenas coisas a que raramente damos importância
em tempo útil, sentimentos, emoções que só por vezes uma breve pausa e
os olhos da alma conseguem vislumbrar. Vivi tempo demais no lado errado
da janela para não saber hoje do que falo. Embebedar-se, ousar,
arriscar, "viver" até cair para o lado, não equivale a qualidade de
vida. De que me adianta uma experiência intensa se quando acordar não me
lembrarei de nada? Não descubro onde está o herói, o corajoso, o sábio,
que rouba dum supermercado o que não precisa, que consegue andar num
transporte público sem pagar porque conseguiu enganar alguém, o que é
transportado em ombros ao fim da noite, porque mal se consegue já
aguentar de pé, quanto mais articular duas palavras seguidas. Vem-me à memória - entre tantos exemplos - a viagem de um grupo de estudantes, respeitáveis exemplares de uma geração
pós-morangos, a das calças para baixo, fiéis seguidoras do desrespeito,
para quem a distinção entre deveres e direitos está como a ficção para a
realidade, extravasaram as fronteiras geográficas deste pequeno jardim e
invadiram um hotel em Maiorca, onde, fazendo jus ao lema do pau que
nasce torto jamais se endireita, depois de um início de viagem azíago,
com a polícia a descobrir algumas substâncias ilícitas entre a comitiva,
terminaram a viagem a ter de pagar os inúmeros estragos causados
durante a estadia, que de permeio teve ainda um acidente fatal para um
dos jovens. Acidente que não foi o suficiente para lhes fazer parar essa
"fúria de viver" como se o tempo lhes fugisse e o tino não lhes
alcançasse. Um pequeno exemplo, trágico como tantos outros que
diariamente vemos diante de nós, de uma sociedade sem lei nem roque,
onde a autoridade, da polícia, paterna, dos professores é pura
demagogia, resquícios de um tempo distante nos ponteiros inflexiveis de
uma vida raramente justa, muito menos fácil. E no entanto continuamos,
insistimos em desperdiçá-la com quezílias, com atitudes insensatas e
inconsequentes, esquecidos dos valores, de tudo o que é mais importante,
a amizade, o amor, o respeito. Futuro? O futuro é hoje uma incógnita,
uma equação indefinida dependente de factores inconstantes e
imprevisiveis, em que tão depressa acredito como a seguir me assustam.
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