sexta-feira, 1 de junho de 2018

A VOZ DAS PALAVRAS - TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS

Elsa  olhou para a fila já extensa, através dos seus olhos onde se reflectia a competência, a responsabilidade e a vontade de fazer bem, apesar do cansaço e da falta de motivação de quem trabalha até à exaustão por um prato cheio de migalhas. Ia ser um dia daqueles e ainda estava a começar.
- Bom dia, o que vai desejar? - perguntava, sempre com um sorriso nos lábios. Um sorriso enorme e sincero, cristalino que contrastava numa combinação perfeita com a sua tez morena.
Não lhe interessavam os queixumes ou a falta de simpatia de quem começava o dia vestido com a má disposição e a amargura de quem nada espera de positivo. A eficiência, sempre o sorriso e uma boa dose de paciência eram as suas armas, a sua armadura para aguentar mais uma maratona diária que a levava a sair de casa antes do Sol nascer e a voltar já tarde. Voltou a passar o olhar pela fila que se ia adensando diante de si até que algo lhe captou a atenção.
- Por favor, a menina, chegue-se à frente. - disse, enquanto uma boa dezena e meia de olhares incrédulos viam aquela rapariga de aspecto frágil e mãos trémulas chegar-se à frente deles todos.
É agora que vai dar confusão, pensei para com os botões que não tinha. Porquê? Por qualquer motivo, por isto ou por aquilo, por motivo nenhum, porque simplesmente é inerente à nossa natureza querermos culpar alguém sem conhecermos as razões de algumas atitudes que nos possam parecer incompreensíveis, mas que raramente as são. Não demorou muito para que se ouvissem algumas vozes mais duras onde antes havia indiferença. "Está a passar à frente porque são da mesma cor!", alguém reclamou. Elsa não ligou, nem desmanchou o sorriso, muito menos a compostura profissional que a caracterizava. "É por ela ser doente!", disseram outros, com aquele tom de condescendência misericordiosa de quem vai todos os domingos à igreja e fala da vida dos outros de segunda a sábado.

- Peço desculpa pelo transtorno e desde já peço a vossa compreensão, mas vou atender esta menina porque ela tem prioridade. - justificou-se, sem grandes delongas - O que vai querer? Vá, pode-se ir sentar que já lhe vou levar à mesa.
Fiquei a pensar para comigo que andamos tão entretidos a descobrir as diferenças dos outros que perdemos o nosso próprio sentido de humanidade, só reconhecendo os problemas e as necessidades dos outros quando nos são atiradas à cara. Ontem foi Dia dos irmãos, anteontem do abraço, existem dias específicos para isto e para aquilo. É o Dia dos namorados, o Dia da mãe, do pai, da criança e quem sabe até da sogra, todos com um dia a si consagrados à laia do Natal ou se de um feriado religioso se tratasse, como se no resto do ano pudéssemos esquecermos-nos da sua existência. Nunca fui apologista desses dias especiais que alguns dizem ser para introspecção mas que para mim são mais para proveito comercial e embora digam que são as diferenças que nos unem não lhes dou eu a relevância que sinceramente não têm. Qualquer dia é bom para sorrir, para um beijo, um abraço, para dizermos às pessoas que nos são queridas que as amamos e que nos fazem falta. Todos os dias são bons para oferecer um presente aos nossos filhos. Da mesma forma que embirro solenemente com a necessidade que temos de reservar lugares no autocarro para as pessoas com necessidades especiais, de colocar caixas específicas nos supermercados para grávidas, idosos e pessoas de crianças ao colo, como se fosse preciso dizerem-nos que ali somos obrigados a dar-lhes prioridade. Já agora, alguém sabe onde fica a caixa do bom senso e do respeito, porque eu acho que os perdemos de tanto olharmos para o umbigo num momento qualquer da nossa evolução.

domingo, 20 de maio de 2018

CULPADO? EU?!

comecei logo a m... do dia a perder o autocarro. É chato, mas a culpa foi do condutor que passou adiantado, do despertador que avariou, do pacote de leite novo que tive de ir buscar à despensa, do vizinho que me veio falar de bola quando saí para as escadas, do Benfica - a culpa tem de ser sempre do Benfica -, do copo a mais que bebi na véspera... do Governo, da oposição, do Papa e do Trump, do... foram eles que me fizeram perder o fdp do bus, não eu. Então porque raio insistem em cruxificar e caluniar uma pessoa íntegra e inocente como se eu fosse o responsável pelo rapto da Maddie e da cena das torres gêmeas?

COWBOYS EM TERRAS DE SUA MAJESTADE

Estes ingleses afinal ainda têm esperança, a julgar pelo que pude observar durante o casamento mais mediático do ano que juntou o príncipe rebelde a uma actriz quase desconhecida mesmo entre os americanos. Juntei-me inesperadamente a uns bons milhares de portugueses que televisionaram este acontecimento tão do agrado da imprensa cor de rosa, mas a alternativa seria sempre levar com mais uma dose incomensurável de notícias sobre o Sporting e Bruno Carvalho. Falta a pachorra, confesso. Assim aliei-me àqueles que, quase 242 anos depois de se terem tornado independentes do Império Britânico vêem agora os americanos invadirem os alicerces mais profundos do orgulho inglês, a Coroa e a família real. Foi uma espécie de 4 de Julho antecipado a cerimónia que decorreu em Windsor, onde no meio de uma turbe de mulheres incógnitas debaixo de tantos chapéus e dos emproados gentlemans, o old-fashioned, arrogante e empoeirado conservadorismo britânico teve de compartilhar o seu espaço com o à vontade e o intimismo tão estranhos aos anfitriões, dos convidados de Meghan Markle, fossem eles americanos ou afro-americanos, mas oriundos de uma Terra Nova mais conhecida pelos westerns do que pelas regras de etiqueta tão gratas em terras de Sua Majestade Isabel II. Ver e ouvir Michael Curry na Capela de St.George em contraste com os representantes locais do Clero, ouvir a belíssima versão de Stand By Me mostraram-me e ao mundo que, numa altura em que muito se tem falado de diversidade e de aceitar as diferenças entre as pessoas, as culturas, pontos de vista tão diferentes ou extremos um convívio são entre as pessoas não pode nem deve ser uma químera, uma palavra vã. Em apenas alguns meses, a misteriosa e supostamente simpática duquesa de Sussex fez mais pela imagem dos americanos além-fronteiras do que Donald Trump desde que tomou posse na Casa Branca, disso não restam duvidas.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

POR QUE NO TE CALLAS? - segunda parte

Bruno de Carvalho foi mauzinho com os jogadores e com o treinador Jorge Jesus uma vez mais. São tantas que já lhes perdi a conta. Perder um jogo decisivo - que jogo não o será? - não é questão de vida ou morte, apenas desporto. Apontar-lhes a responsabilidade de terem prejudicado o clube pelos milhões que deixaram de entrar nos cofres pela não entrada na Liga dos Campeões é não apenas injusto, vindo de quem pouco percebe de futebol e desportivismo, como de uma irresponsabilidade perigosa. O resultado foi visível com a invasão do centro de estágio e consequentes agressões a treinador e jogadores por um bando organizado de energúmenos. As palavras são um dom ou uma arma consoante o uso que lhes dermos e BdC - e agora alegadamente o seu pai - tem sido useiro e vezeiro em torná-las vulgares e sobretudo instigadoras de uma violência abominável para quem está tão exposto publicamente. Caro Bruno, Rui Patrício não chegou agora ao Sporting, a quem já deu mais do que alguma vez darás e não é um frango que o apagará da memória não apenas dos sportinguistas como dos adeptos portugueses; culpá-los de perder com o Marítimo é desvalorizar uma instituição histórica que lutou quase até ao fim pela Liga Europa e ofender os seus adeptos; reagir como se a época tivesse sido miserável é esquecer todas as vitórias conquistadas pelas modalidades ditas amadoras, como também a Taça da Liga, os quartos de final da Liga Europa e talvez a Taça de Portugal. Pouco? Não me parece, especialmente contra todos os obstáculos por si criados, pela arrogância, sempre voltada para insinuações sobre os rivais, demonstrando má fé e falta de desportivismo. Quem semeia ventos colhe tempestades, soi dizer-se e a vergonha das suspeitas de corrupção de que somos hoje acusados não pode imputar nem ao treinador nem aos jogadores ou numa qualquer das suas teorias da conspiração ao Benfica, como certamente gostaria. Hoje, como sportinguista e adepto de futebol, não me revejo nas suas cabalas maquiavélicas, nem em toda esta violência protagonizada por quem acha que o futebol e as suas rivalidades são mais importantes que a vida e o respeito entre vencedores e vencidos. De uma vez por todas, senhor Presidente, por que no se calla?

POR QUE NO TE CALLAS?




Do dia para a noite é a distância que vai entre as duas últimas músicas vencedoras do Festival da Eurovisão, mas isso já todos o sabíamos, pela melodia suave e enternecedora do tema cantado por um discreto Salvador Sobral à panóplia de sons do tema interpretado por uma extravagante Netta Barzilai. Agora, numa análise convenientemente mais a frio, apresentamos a letra de Toy, que surgiu desde há muito como a grande favorita à vitória, por uma mensagem alegadamente louvável ao encontro do movimento #MeToo e tudo o mais que está na moda sobre o assédio sexual. Da força da letra e do que ela pode passar de tão relevante, a ponto de ter sido tão votada como elogiada, atentemos então na obra-prima em questão:


Olha para mim, sou uma criatura linda
Não me importo com a tua pregação moderna
Sejam bem-vindos meninos, barulho de mais, vou ensinar-lhes
Pám pám pá hu, turrám pám pá hu
Ei, acho que te esqueceste de como jogar
O meu urso de peluche está a fugir
A Barbie tem algo a dizer
Hey
Ei! O meu rei manda que me deixes em paz
Levo o meu Pikachu para casa
És estúpido, como o teu smartphone
Mulher Maravilha, nunca te esqueças
De que és divina e ele está prestes a arrepender-se
É um rapaz có-có-có-có, có-có-có-có
Có-có-có-có, có-có-có-có
Não sou o teu có-có-có-có, có-có-có-có
Não sou o teu brinquedo (o teu brinquedo, não)
Rapaz estúpido (rapaz estúpido)
Agora vou derrubar-te, fazer-te assistir
A dançar com as minhas bonecas ao ritmo do c…alho
Não sou o teu brinquedo (cululi, cululu)
Nã-nã-nã-não sou boneca
Nã-nã-nã-não sou boneca
(Cululi, cululu) Sinos de casamento a tocar
(Cululi, cululu) Homens do dinheiro bling-bling
Não me importo com o teu dinheiro, rapaz
Pám pám pá hu, turrám pám pá hu
Mulher Maravilha, nunca te esqueças
De que és divina e ele está prestes a arrepender-se
É um rapaz có-có-có-có, có-có-có-có
Có-có-có-có, có-có-có-có
Não sou o teu có-có-có-có, có-có-có-có

Um verdadeiro hino ao feminismo, como diria Ana Bola, com o humor inteligente que lhe é tão peculiar, ao contrário das loas de Maria Vieira à vitória de Netta - não  sei se por razões músicais -, mas principalmente políticas da vitória de um país que em muito tem contribuído para a harmonia e paz mundial de que falam as candidatas a misses. Diria a minha já falecida mas nem por isso menos inteligente avó: "o que é que o cu tem a ver com as calças, misturar política e canções", ou estará Maria Vieira a querer comparar o irritante Toy de Netta Barzilai com o "E Depois do Adeus" de Paulo Carvalho?

domingo, 13 de maio de 2018

TOYS SOBRE A FAIXA DE GAZA

Estes israelitas são decididamente e obcecadamente focados naquilo que têm de fazer, não se desviando dos seus objectivos sob que pretexto for, mesmo que tenham acabado de vencer o festival da eurovisão. Afinal, peanuts, como diria Jorge Jesus. Não é que no mesmo dia em que Netta Barzilai  conquistava a preferência dos telespectadores europeus e recebia o respectivo troféu pelas mãos de Salvador Sobral - o mesmo que disse que a canção era horrível - a força aérea israelita resolvia bombardear a Faixa de Gaza, obedecendo fielmente à máxima "serviço é serviço... conhaque é  conhaque". Bem pensado, mas mal executado por parte das tropas de Israel , uma vez que teria sido preferível para os nossos ouvidos e causado um maior impacto militar lançarem a cantora de "I'm Not Your Toy" sobre a zona de Beit Hanoun ao invés de a deixarem pôr os pés no Altice Arena. Nem sempre a vida é como desejaríamos, ou como disse Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita após a vitória de Netta em Lisboa: נטע, את כפרה אמיתית. הבאת הרבה כבוד למדינת ישראל! לשנה הבאה. Para meditar e reflectir.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A VOZ DAS PALAVRAS - UM PAÍS GRANDE DE MENTALIDADES TACANHAS

Terminadas que estão as duas semi-finais do grande evento que decorre em Portugal por estes dias, o Festival Eurovisão da Canção, renascido no coração dos portugueses desde há um ano, somos constantemente bombardeados nos media por críticos e afins - ou não fossemos um país onde todos são treinadores de bancada, onde todos têm um blogue, todos opinam e onde poucos costumam ter razão. São loas para a excelente organização, para um espectáculo como poucas vezes se viu em terras lusitanas, para o inglês perfeito e o à vontade das apresentadoras da rtp1, usualmente tão sisudas e formais. Só não gabam a canção portuguesa, mas isso já exigiria um grande esforço de imaginação e de cinismo. Créditos à parte o tom repetido até à exaustão dá-me a parecer que ninguém acreditava que pudéssemos atingir um patamar de excelência, como endeusaram Salvador Sobral - guardem um espaço no Panteão para o homem! - e outros feitos e personalidades que sobressaem tão raramente dum país sempre descrente dos seus, habituado a ver Adamastores em cada percalço por mais singelo. Tanto entusiasmo significa que não somos capazes de fazer o que os outros fazem? Por acaso ficámos lá atrás enquanto o resto do mundo pulava e avançava como no poema intemporal de António Gedeão? Joaquim Meirim, treinador polémico e revolucionário para a época costumava dizer aos seus jogadores na preparação dos jogos contra os chamados grandes que não tinham que ter medo dos adversários, que tinham dois olhos, dois braços, duas pernas, exactamente o mesmo que eles. Nem mais, nem menos. E se nos menosprezamos quando gabamos tanto o que se faz lá fora, pecamos de igual forma inconscientemente ou não quando avaliamos as nossas "proezas" como coisas do outro mundo, como algo de anormal para as nossas capacidades e talento. Talvez "o jardim" venha colocar um pouco de água na fervura neste frenesim exacerbado, mas a verdade é que já ganhámos ao mostrar que quando queremos e temos condições somos capazes de ser tão bons como os melhores, na organização, no profissionalismo, nas mais diversas áreas onde ainda nos olham e nos revemos também nós com a desconfiança e o cepticismo próprios dos velhos do Restelo.
#oladobdavida2