quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

MENINOS QUE BRINCAM COM BONECAS NÃO BEIJAM SAPOS

 Há coisa de um ano mais ou menos, numa festa de aniversário do filho de uns conhecidos meus, a criança - na inocência dos seus três, quatro anos - largou os carros, as bolas e afins para agarrar-se à Barbie de uma menina, filha dum outro casal. O facto teria passado despercebido à maioria das pessoas, não fosse a atitude do meu amigo, na sofreguidão de separar o filho daquela boneca como se fosse algum objecto perigoso, dando-lhe um raspanete que atraiu a atenção de todos os presentes e os deixou melindrados sem saber o que dizer ou fazer. Que grande bronca! Afinal teria sido pior apanhá-lo a pintar as unhas. Ou não?
Estou a falar de um casal quase à beira dos trinta anos, teoricamente de espírito aberto e despidos dos preconceitos que caracterizavam as gerações mais antigas. Se isso me choca? Sinceramente, proibir um menino de brincar com bonecas ou uma menina de brincar com uma bola choca-me. Achar que uma brincadeira inocente, um gesto revelador de curiosidade vão moldar as preferências sexuais de um filho é irracional, aberrante e próprio de alguém inseguro e preconceituoso. O mal está na cabeça das pessoas. Compreendo o medo de alguns pais que não queiram um filho larilas. É quase como a filha aparecer-lhes em casa e apresentar-lhes um namorado preto, mesmo assim preferível a ser cigano, diriam alguns outros amigos, meio a sério meio a brincar. Talvez por isso teimamos em colocar os nossos filhos a praticarem actividades físicas apropriadas, enquanto rodeamos as meninas de um universo cor de rosa, digno de uma princesa. Até que ponto não somos nós, pais ou não, membros duma sociedade alicerçada em rótulos e estereótipos caducados a contribuir para um sem-número de violações e violência doméstica, à submissão da fêmea - cujo papel se resume à cozinha e à cama - perante o macho dono e senhor da verdade, um grande homem se tiver amantes ao contrário delas, umas p...? Porque ao homem que é homem permite-se tudo.
Fazer como o meu amigo é abrir uma caixa de Pandora, pois proibir seja o que for vai aguçar a curiosidade das crianças, despertar-lhes a atenção para o que doutra maneira lhes passaria despercebido. Não foi sempre o proibido o fruto mais apetecido? Deixem as crianças brincar. Dêem-lhes asas, ferramentas para crescerem, para se conhecerem e se tornarem cidadãos melhores, independentemente das suas opções sexuais. Não importa se o façam com uma bola ou uma tiara, a jogar à apanhada ou a brincar aos médicos. Não importa. Seja não apenas um pai, mas o melhor amigo do seu filho, ajude-o, aconselhe-o respeite os seus princípios e sobretudo aceite as suas escolhas, porque nem todos os meninos que brincam com bonecas vão um dia beijar sapos, uns viram princesas outros condes.


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